
Um novo tempo para o mercado mundial, e o Brasil?
Mercado
Marcus Lima
16 de março de 2025 · 3 min de leitura
O mercado brasileiro de sorvetes vive uma transformação profunda e silenciosa. Com mais de 24 anos no setor de ingredientes e aditivos para alimentos, testemunhei essa virada: de um tempo em que Unilever e Nestlé ditavam as regras para um cenário onde players locais e regionais lideram a inovação.
Saída estratégica das gigantes
Em 2024, a Unilever anunciou a separação global de sua divisão de sorvetes, incluindo Kibon e Magnum, culminando em um spin-off concluído em dezembro de 2025 com a criação da Magnum Ice Cream Company – agora independente, com a Unilever mantendo participação minoritária. O foco da holding migra para beleza, cuidados pessoais, domésticos e nutrição, categorias com margens mais estáveis e menos sazonalidade, liberando capital de ativos como freezers e logística fria. O futuro provável da Magnum e de outros negócios de sorvete é a venda.
A Nestlé finalizou em 2026 a transferência total para a Froneri, joint venture com PAI Partners, abrangendo no Brasil marcas como La Frutta, Mega e KitKat Sorvetes. Isso reforça a priorização de café, pet food, nutrição e snacks. As marcas seguem nas gôndolas, mas o processo já dilui o controle: produtos fortes da Mondelez, como Oreo, integram lançamentos chave da Froneri nacional.
Mudança no eixo da inovação
Quando entrei no mercado em 2000, Kibon e Nestlé eram a bússola: precificação, portfólio, freezers e tendências vinham delas, guiando as regionais. A partir de 2010, eventos marcantes subverteram essa lógica top-down.
Primeiro, o crescimento contínuo do açaí, com redes híbridas de sorveteria, sucos e delivery disputando o consumo gelado. Em seguida, o "leitinho trufado", primeira grande inovação industrial de baixo para cima, forçando as multinacionais a reagir. Terceirizadoras de picolés extrusados ampliaram o jogo, com produtos como brownies, pães de mel, torta de limão e mais – elevando de dois ou três sabores para além de dez os sabores nos freezers das marcas regionais, multiplicando disponibilidade e consumo.
Não param por aí: potes de 1,8 litros transparentes, com recheios fartos, competitivos e indulgentes; e redes de lojas próprias de fabricantes, criando um canal forte e crescente à parte. Por fim, o gelato no pote, impulsionado por Bacio di Latte. Após superar 200 lojas no Brasil, seus potes alcançam cerca de 12 mil pontos de varejo em 2026, redefinindo o premium.
O comum nesses movimentos? Transformaram produtos, tendências e precificação fora do eixo das multinacionais. Elas reagiram com novos picolés extrusados, potes e linhas limitadas de açaí ou premium – só após os conceitos se consolidarem nos freezers regionais.
Mercado mais maduro e autônomo
Assim concluo: o mercado brasileiro de sorvetes mudou e amadureceu. Tendências agora vêm de todos os lados, em todos os níveis de produto e preço, não só de duas gigantes. O próximo sucesso pode nascer em Campinas, Sorocaba ou Belém, obrigando as globais, e todos, a seguirem.
Para nós que pensamos e vivemos sorvete, é notícia excelente – mas exige olhos e ouvidos ainda mais atentos ao que virá.