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    A Convergência entre o Mercado de Suplementos e a Indústria de Sorvetes: Desafios Técnicos e Estratégicos
    Construir palatabilidade e entregar também nutrição, desafio desse e de toda inovação saudável no mercado de sorvetes.

    A Convergência entre o Mercado de Suplementos e a Indústria de Sorvetes: Desafios Técnicos e Estratégicos

    17/04/2026

    O mercado brasileiro de suplementos vive uma transição de paradigma. O setor, que já movimenta R$ 10 bilhões, projeta um crescimento anual de 9,5%. Com esse ritmo, o mercado deve dobrar de tamanho em aproximadamente 8 anos. Mais do que o volume financeiro, o que impressiona é a mudança no perfil do consumo: saímos do nicho "fitness" para o consumidor geral focado em saúde e longevidade.

    Este cenário abre uma janela de oportunidade para o sorvete, mas o sucesso depende de superar barreiras técnicas que vão muito além da simples adição de proteína à calda.

    1. Posicionamento de Mercado e o Desafio do PDV

    Embora algumas empresas de grande porte já tenham explorado o segmento proteico — inclusive com estratégias pontuais de co-branding — a comunicação desse produto exige um olhar cirúrgico.

    Comunicação Integrada: Para esse nicho, o marketing deve ser focado em canais digitais (Instagram, YouTube e anúncios segmentados). As artes devem destacar o perfil nutricional do produto. Esse consumidor busca clareza sobre o aporte proteico e a origem dos ingredientes.

    O "Estranho no Ninho": O mix de produtos das sorveterias tradicionais é majoritariamente indulgente. Colocar um produto focado em saúde dentro de um freezer de padaria ou restaurante, ao lado de sobremesas hipercalóricas, gera um conflito de percepção, e pode não necessariamente gerar o resultado esperado.

    Uma Solução possível: O PDV usual não conversa com o público de academias e estúdios. Uma estratégia possível seria usar freezers exclusivos e menores, posicionados em lojas de suplementos e espaços de prática física, apresentando itens mais afins a produtos proteicos, como picolés de fruta e açaí.

    2. Um ponto de vista técnico: os desafios do desenvolvimento de produtos proteicos em sorvete

    2.1. Zero lactose x seleção de fontes proteicas

    Muitas das bebidas RTD são zero lactose. Fazer essa opção, quando pensamos no desenvolvimento de um sorvete, adiciona dificuldades técnicas substanciais:

    Necessidade do uso de lactase: O uso da enzima lactase para quebrar a lactose em glicose e galactose requer um tempo de reação de cerca de 24 horas para garantir a hidrólise total, o que impacta o fluxo produtivo.

    Seleção de Insumos alternativos: O uso de leite em pó integral ou desnatado e Concentrado Proteico de Soro de Leite (WPC 80%) é comum, porém ambos contêm lactose. Leite em pó zero lactose ainda possui baixa disponibilidade no mercado e alto custo, e seria necessário utilizar Isolado Proteico de Soro de Leite (WPI) combinado: com custo do WPI substancialmente mais alto. Usualmente, o perfil de sabor com concentrado proteico tende a ser melhor.

    Repensar toda a fórmula: o cálculo de curva de congelamento, quando temos uso de leite em pó delactosado, muda substancialmente, porque o efeito anti-congelante de galactose e glicose, derivadas da hidrólise da lactose, é substancialmente maior. Além de seu efeito em dulçor.

    2.2. Curva de congelamento e definição do corpo: uma análise comparada com bebidas RTD

    Diferente das bebidas Ready to Drink (RTD), onde o açúcar é substituído apenas visando sabor e preenchimento de boca, no sorvete o carboidrato é um agente funcional de controle do ponto de congelamento, que garante que o sorvete permaneça macio e espatulável a -12°C.

    Substituição da Sacarose: Nutricionalmente, a sacarose é inadequada por gerar picos na curva glicêmica — a velocidade com que o açúcar entra na corrente sanguínea. Para um público que busca performance ou controle metabólico, isso é contraproducente. Há ainda a questão da legislação de advertência de carboidratos: ser "alto em açúcar adicionado", para um produto saudável, pode ser problemático, gerando rejeição.

    Polióis e Edulcorantes: A solução técnica para o selo "Sem Adição de Açúcares" reside na combinação de polióis (Maltitol, Eritritol, Sorbitol) com edulcorantes intensos (Sucralose, Stevia). Contudo, o formulador deve estar atento ao efeito laxativo desses polióis em altas concentrações. Outra via é o uso de carboidratos de baixo índice glicêmico para modular a curva glicêmica, como frutose, maltodextrina, dextrose entre outros: e aí, o cuidado recai sobre pensar as quantidades para conseguir conciliar três objetivos: ter suficiente sabor doce, adequado ponto de congelamento, e evitar a advertência legal relacionada a açúcares adicionados.

    2.3. A quantidade de proteína e seu impacto na palatabilidade

    A decisão de compra é fortemente influenciada pela quantidade de proteína declarada, mas a viabilidade técnica diminui à medida que aumentamos essa concentração. Vamos comparar com o padrão das bebidas RTD:

    O Padrão RTD: Uma bebida de 250ml com 15g de proteína possui uma concentração de 6%. Nesse nível, o perfil de sabor é limpo e a aromatização é facilitada: obtém-se facilmente um produto de alta palatabilidade. No sorvete base leite (que já possui cerca de 3,5% de proteína natural), adicionar proteína para chegar aos 6% é simples e mantém a qualidade sensorial. Então, por exemplo, entregar um pote de 350 ml de sorvete proteico com 15 gramas de proteína seria altamente viável, e até fácil, criando produtos cuja palatabilidade seria altamente agradável mesmo com os aromas mais delicados, como baunilha.

    O Desafio de porções menores: Se tentarmos colocar os mesmos 15g de proteína em um picolé de 60g, a concentração de proteína necessária salta para 25%. É pouco viável obter um sabor limpo nesse nível de proteína; as notas residuais (off-flavors) do soro de leite ou colágeno tornam-se dominantes. O excesso de sólidos proteicos altera drasticamente a viscosidade, e resta pouco espaço para acrescentar aromatizantes e carboidratos ou polióis para regular a curva de congelamento. O resultado tende a ser um picolé com textura prejudicada, sabor desagradável e derretimento excessivo.

    2.4. Escolha de fontes proteicas e palatabilidade

    Fontes como o WPC 80%, combinadas a leite em pó integral ou desnatado, tendem a oferecer um perfil de sabor superior a certos isolados ou colágeno hidrolisado, facilitando o trabalho de aromatização e resultando em um produto final mais agradável.

    3. Conclusão

    O desenvolvimento de sorvetes, picolés e açaí proteicos requer um desenho equilibrado de um bom planejamento promocional e de marketing, uma análise da viabilidade econômica; aliados ao exercício de desenvolvimento técnico que entregue um produto agradável, com boa textura, cremosidade, sabor e o correto perfil nutricional. É um mercado crescente, rentável, que atrai atenção até de grandes grupos farmacêuticos: e que, porque cresce para fora das fronteiras do mundo fitness, convida o mercado de sorvete a participar.

    Rotas de conteúdo técnico da Midas Food Consult

    Consultoria técnica para fabricantes de sorvetes, picolés e açaí. Desenvolvimento de produtos zero açúcar, zero lactose, proteicos, alcoólicos, salgados e para pets. Redução de custos e orientação para empreendedores.

    Trecho técnico da página /zero-acucar

    Sorvetes, picolés e açaí sem adição de açúcar exigem equilíbrio técnico de congelamento, maciez e cremosidade para não resultar em bloco de gelo com residual de adoçante.

    A consultoria em /zero-acucar atua no desenvolvimento de fórmulas exclusivas, otimização de processo, busca de melhores fornecedores e adequação completa da rotulagem.